Reportagem: Eduardo Costa
Supervisão: Luiz Pedro Passos
Foto: Carla Lucena
O Terreiro do Cobre, localizado no bairro da Federação, recebeu na última terça-feira(19), mais uma edição do Patrimônio É…, projeto promovido pela Fundação Gregório de Mattos. O evento teve como tema “Cultura da Paz: Caminhada do Povo de Santo”. Durante a roda de conversa, a centralidade da discussão girou em torno da importância do combate à intolerância religiosa. O encontro contou com as participações de Mãe Val de Ayrá, Mãe Jaciara e Albino Júnior.

As caminhadas do povo santo tiveram início, em Salvador, há cerca de vinte anos. A ideia era de ser um forte de resistência contra o racismo religioso. Albino Júnior relembrou o começo e a história da caminhada Azoany. “Foi pensando nas questões religiosas. Criar uma caminhada para fortalecer as religiões de matriz africana, tendo em vista a violência e retaliações sofridas por nós ao longo de todos esses anos”, comenta.
Mãe Jaciara, filha de Mãe Gilda, ambas ligadas ao Terreiro Axé Abassá de Ogum, em Itapuã, mantém viva a memória de sua mãe, uma liderança espiritual cuja trajetória foi marcada pela luta contra o racismo religioso. Durante a discussão, Mãe Jaciara relembrou a história de Mãe Gilda, que faleceu em 2000, aos 65 anos, vítima de um infarto fulminante atribuído, segundo seus familiares, às agressões de intolerância religiosa que enfrentou. Em homenagem a ela, o dia 21 de janeiro, data de seu falecimento, foi instituído como o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa.
A Caminhada do Povo de Santo, realizada em Itapuã, nasceu como um gesto de reparação pela perda de Mãe Gilda e pela luta por justiça. “Vinte e quatro anos depois, ainda engulo muito choro. Não é confortável, mesmo com todas as conquistas”, desabafa Mãe Jaciara, refletindo sobre os desafios persistentes.

Ao celebrar os 20 anos das caminhadas do Terreiro do Cobre, Mãe Val de Ayrá destacou a importância do evento como uma forma de encerrar o ano com chave de ouro, além de refletir sobre os desafios enfrentados diante dos ataques vindos de outros grupos religiosos. “Este evento é uma maneira de fortalecer uma causa que ainda é tão difícil para o povo preto e para as religiões de matriz africana. Ficava muito triste com os ataques que recebia, pois nós não temos o hábito de vender nossa fé”, desabafou.
O diretor de Patrimônio e Equipamentos Culturais da Fundação Gregório de Mattos, Chicco Assis, salientou a importância em falar sobre as caminhadas do povo de santo, em um contexto de intolerância religiosa. “Essas caminhadas são importantes para reforçar essa luta constante de combate ao racismo religioso, a intolerância, a falta de respeito, principalmente contra o povo santo. Então é uma forma que eles têm de chamar a atenção e de se colocar nas lutas contra essas discriminações que geralmente acontecem.”
Já o presidente da FGM, Fernando Guerreiro, destacou o trabalho feito em relação ao patrimônio em Salvador. “Durante a nossa gestão na Fundação Gregório de Mattos, realizamos um trabalho significativo nessa área, promovendo regulamentação através da Lei do Patrimônio, mas também de preservação, valorização e salvaguarda” , afirmou. Em relação às Caminhas do Povo de Santo, o gestor revelou alguns planos para 2025: “Nosso objetivo é criar o circuito das caminhadas e calendarizar esses eventos, transformando-os em uma grande fonte de reconhecimento para os povos de santo.”


