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Com participação maciça de servidores negros da Prefeitura de Salvador, FGM discutiu colorismo e combate ao racismo

Publicado: 12/12/2024-13:39

Reportagem: Luiz Pedro Passos

Fotos: Carla Lucena

Colorismo. Um tema ainda pouco discutido e difundido, mas que merece a atenção de toda sociedade. Buscando suprir essa lacuna, a Fundação Gregório de Mattos, em parceria com a Secretaria Municipal da Reparação, promoveu na última quarta-feira (10), o evento Multiálogo: colorismo e suas nuances. Com o Espaço Cultural da Barroquinha lotado, a atividade foi marcada pela presença expressiva de servidoras e servidores negros da Prefeitura de Salvador. 

As discussões foram encabeçadas pela pesquisadora, escritora e ativista Carla Akotirene e pelo pesquisador, membro do Conselho Municipal de Comunidades Negras (CMCN), do Conselho Municipal de Política Cultural (CMPC) e  representante do CMPC na Comissão de Heteroidentificação da FGM,  Saullo de Tasso. Os dois lançaram luz sobre a temática de forma didática, potente e aprofundada. A mediação ficou por conta de Oilda Rejane, advogada e comunicóloga, que é a coordenadora do PCRI na Prefeitura de Salvador e de Ações Transversais na Secretaria da Reparação.

O que é o Colorismo – Akotirene lembra que o conceito de colorismo foi criado pela autora negra estadunidense, Alice Walk, que definiu como o tratamento preconceituoso ou preferencial de pessoas da mesma raça baseado exclusivamente na cor da pele. “O colorismo, dentro da experiência da negritude, vai fazer com que as mulheres da minha cor de pele (retinta), não sejam consideradas humanas suficientes”, afirma. 

A pesquisadora explica que o colorismo não pretende tirar a negritude de quem quer que seja, mas vai mostrar que o marcador da cor da pele vai ser usado para diferenciar as pessoas. “O colorismo é quando você olha para a pessoa retinta e retira dela a condição de humanidade, dizendo que ela não é boa o suficiente para estar naquele cargo. Aí você coloca alguém que se parece mais, tem uma passabilidade maior, segundo o olhar branco”, conclui. 

Empoderamento contra o racismo – Com uma fala que objetivou o empoderamento das pessoas negras como estratégia de combate ao racismo, Tasso chamou atenção para a necessidade de se conhecer o passado, fortalecer as identidades e promover o sentimento de posse. “Isso é necessário para que a gente saia do lugar do letramento e chegue ao lugar da posse, para nos entendermos enquanto comunidade negra, de uma forma muito mais complexa, completa, no sentido de lutarmos de um jeito mais contundente contra o racismo”, pontua . 

De acordo com o presidente da Fundação Gregório de Mattos, Fernando Guerreiro, o evento promoveu um bate-papo potente e repleto de trocas valiosas, mas sem deixar de celebrar a cultura negra e toda a sua riqueza, buscando promover a transformação por meio da arte e do diálogo. “Momentos como este reafirmam o papel da Fundação Gregório de Mattos em fomentar reflexões e mudanças que fortalecem nossa identidade cultural e nossa luta por igualdade”, defende.

Combate ao racismo na Prefeitura de Salvador – Desde 2005, a Prefeitura de Salvador implementa o Programa de Combate ao Racismo Institucional (PCRI). Esse programa tem o objetivo de capacitar gestores públicos para a promoção da igualdade racial e a formação de banco de dados com recorte racial nos diversos setores da administração pública municipal. As estratégias e iniciativas do Programa estão explicitadas no Plano Municipal do PCRI, que é referendado pelo Planejamento Estratégico da PMS e pelo Estatuto da Igualdade Racial e de Combate à Intolerância Religiosa de Salvador (Lei n.º 9451/2019). Esses documentos norteiam a política de reserva de vagas às pessoas pretas e pardas em concursos e seleções da PMS, incluindo os editais de fomento da FGM. 

Esses dispositivos, estratégias e ações demonstram o compromisso da Prefeitura para a construção de uma sociedade mais igualitária e representativa, além disso, coloca Salvador como grande referência para o país no que diz respeito à política de combate ao racismo. 

Servidor de carreira da Prefeitura, o subsecretário de Cultura, Valter Pinto, rememorou os desafios para a construção desse plano logo em seu início e destacou o lugar que hoje ele ocupa na estrutura administrativa. “No começo, era um espaço em que a gente compartilhava as nossas dores individuais, que eram também coletivas, com o passar dos anos, o PCRI foi ganhando corpo, se institucionalizando, até se configurar como um planejamento estratégico e uma política pública que de fato ele é”, lembra. 

Atualmente, sob a coordenação da Secretaria Municipal de Reparação, o PCRI é executado de maneira colaborativa por todos os órgãos municipais. A secretária Municipal da Reparação, a professora Ivete Sacramento destaca que a atuação efetiva do programa faz com que a Prefeitura possa se intitular como uma prefeitura antirracista. Na oportunidade, Sacramentou convocou às novas gerações a assumirem o compromisso pela manutenção e fortalecimento dessa política.

“É essa juventude negra que está aqui que vai dar continuidade aos nossos passos, para fazer com que sejamos cada vez mais uma prefeitura antirracista. Esse é um caminho sem volta, por isso eu tenho certeza que as ações afirmativas e as políticas públicas para a comunidade negra em Salvador serão cada vez mais fortalecidas”, afirmou. 

Lançamento de cartilha e apresentações culturais – Durante o evento, a FGM lançou a Cartilha de Heteroidentificação, desenvolvida para orientar artistas e agentes culturais sobre a reserva de vagas para pessoas pretas e pardas nos editais de fomento da Fundação. Esse material foi elaborado em consonância com o Estatuto da Igualdade Racial e de Combate à Intolerância Religiosa e o Plano Municipal do PCRI, em parceria com a Secretaria da Reparação, reafirmando o compromisso da Fundação com a promoção da equidade racial.

A programação inclui ainda apresentações culturais com Brunno de Jesus, que interpretou músicas do Ilê Aiyê em formato acústico e performance do bailarino Lukas DiJesus.