Reportagem: Luiz Pedro Passos
A tradicional Festa de Iemanjá, uma das expressões culturais mais marcantes de Salvador, está se aproximando. Para reforçar a importância dessa festa e celebrar os cinco anos do seu reconhecimento como patrimônio imaterial, a Prefeitura de Salvador, por meio da Fundação Gregório de Mattos (FGM), está organizando um evento que reúne uma série de iniciativas voltadas à valorização e salvaguarda do bem cultural. O encontro acontece na próxima quinta-feira (30), às 16h, na Colônia Z1, no Rio Vermelho, reunindo autoridades, especialistas, gestores culturais, detentores, devotos e interessados.
A programação busca destacar o valor cultural e espiritual da Festa de Iemanjá e fortalecer as estratégias para a preservação dessa tradição, incluindo a inauguração do restauro da escultura da Rainha do Mar, realizada por professor José Dirson e equipe do Estúdio Argolo. Os pescadores esperam que as intervenções devolvam as características originais da escultura. “Esperamos que ela volte a ser como era antes, sem aquela tinta cobrindo as conchas”, ressaltou Nilo, pescador da Colônia Z1.
Além disso, será realizada a entrega da requalificação embarcações que conduzem as oferendas, viabilizada por meio de convênio entre a FGM e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), executada por meio de parceria com a Associação dos Terreiros da Bahia Egbé Axé. O valor total do investimento foi de R$ 109 mil.
Também através de parceria com a Egbé Axé, o Prêmio Salvador Cidade Patrimônio, lançado em 2023, destinou R$ 1 milhão para projetos voltados à proteção do patrimônio material e imaterial da capital baiana, sendo R$ 450 mil investidos na premiação. A iniciativa contemplou agentes culturais e cidadãos que se destacam na preservação das tradições locais, incluindo os pescadores da Colônia Z1, principais detentores da Festa de Iemanjá.
Os pescadores da Colônia Z1 simbolizam esse cuidado histórico. Desde 2020, a Festa de Iemanjá é reconhecida como Patrimônio Imaterial pela FGM, com os pescadores sendo considerados detentores dessa manifestação, que remonta à década de 1920, quando foi introduzida por pescadores do bairro do Rio Vermelho. Além de organizar a entrega das oferendas à Mãe das Águas, eles desempenham um papel central na celebração.
Com o objetivo de preservar e fortalecer a tradição, a FGM, em parceria com a Associação de Terreiros da Bahia Egbé Axé, promoveu oficinas para elaboração do Plano de Salvaguarda da Festa de Iemanjá, que será apresentado durante o evento. O documento foi elaborado em parceria com pescadores da Colônia Z1.
No dia 30 de janeiro, ocorrerá também o primeiro encontro do “Patrimônio É…” de 2025, com o tema central voltado à Festa de Iemanjá. Esse projeto mensal reúne especialistas, acadêmicos, artistas e agentes culturais para debater aspectos diversos do patrimônio cultural de Salvador, abordando história, memória, arquitetura, espaço público, educação e economia criativa. Os diálogos desta edição serão conduzidos por Cleidiana Ramos e Mércia Queiroz.
Ainda dentro das comemorações dos 5 anos do reconhecimento da Festa de Iemanjá como Patrimônio Imaterial de Salvador, será realizado no próximo dia 31 de janeiro a 15ª Lavagem da Escultura de Odoya, do artista plástico Ray Vianna. A ação, que tem o apoio da FGM, acontecerá a partir das 16h, na praia da Paciência, no Rio Vermelho.
Para o Diretor de Patrimônio e Equipamentos Culturais da FGM, Chicco Assis, a Festa de Iemanjá é uma das mais importantes do calendário de festas populares de Salvador, tanto pela sua grande capacidade de atrair soteropolitanos e turistas, mas especialmente por ser a única a ter o nome de uma divindade das religiões de matriz africana. “Portanto, essa manifestação contribui para o fortalecimento da identidade afrodiaspóricas e para o combate ao racismo, intolerância, ódio e desrespeito religioso que ainda hoje tenta atacar a religiosidade afrobrasileira e seus adeptos”, afirma.
Palestrantes do Patrimônio É…
Cleidiana Ramos
Formada em Jornalismo, com doutorado em antropologia e pesquisadora em áreas como Antropologia da Festa, Antropologia das Religiões, Cibercultura, Jornalismo-Memória e Memória Social. É autora de Os Caminhos da Água Grande e Cibervida, Cibermorte, Cibersorte.
Mércia Queiroz
Mércia Queiroz é Doutora e Mestre em Cultura e Sociedade pela UFBA, pesquisadora no Observatório de Economia Criativa da Bahia e especialista em Economia Criativa, Produção e Gestão Cultural. Com experiência em diversas instituições públicas, atuou na Fundação Gregório de Mattos, TV Educativa da Bahia, Fundação Cultural Palmares, e no Ministério da Cultura. Desde 2024, é Coordenadora do Escritório Bahia Criativa na Secretaria de Cultura do Estado.
Festa de Iemanjá
A Festa de Iemanjá é uma tradicional celebração que acontece todo dia 2 de Fevereiro no bairro do Rio Vermelho, em Salvador. A data é marcada por grande devoção e reverência a imagem de Iemanjá, a orixá das águas salgadas, dos mares e oceanos, sendo considerada a mãe de todos os orixás e uma divindade protetora das mulheres e dos pescadores.

