Foto: Carla Lucena
Reportagem: Luiz Pedro Passos
Lembranças carregadas de afeto e falas de valorização e respeito às ancestralidades foram o ponto de partida das discussões feitas pelos mestres e mestras do Samba Junino durante mais uma roda de conversa do Projeto Patrimônio É…, promovido pela Fundação Gregório de Mattos. O evento ocorreu na Praça do Coreto, no final de linha do Garcia, no final da tarde desta quarta-feira (19). Além dos mestres e mestras, a roda contou com a participação de foliões e pesquisadores do tema.
Essa edição contou com as presenças especiais da mestra Jacira Bafafé e dos Mestres Lobo Mall e Seu Flôr, os homenageados da noite. Além deles, o mestre Augusto Conceição também foi congratulado, porém, devido a problemas de saúde, não pôde comparecer. Os quatro foram selecionados através do edital Prêmio Samba Junino, da FGM. Os mestres e mestras foram merecidamente reconhecidos pelas contribuições dadas para a preservação e promoção dessa importante manifestação cultural da cidade de Salvador.

O evento teve ainda a oportunidade de celebrar as histórias de dedicação dos homenageados e os impactos gerados na comunidade pelo trabalho desenvolvido por cada um. Com isso, a mestra e os mestres recordaram o surgimento do samba junino, evocando o protagonismo de suas ancestralidades. Enquanto uma manifestação que nasceu no seio familiar, dentro dos terreiros de candomblé, dona Jacira Bafafé lembra que a festa antes de ir para a rua, teve a função de unir a comunidade, durante os festejos juninos, nos templos do candomblé.
Nessa relação entre religião e costumes, as mulheres tinham um papel importante. Antes de serem foliãs, ajudavam na confecção das roupas e adereços. “Era um grupo de mulheres negras, de terreiro de candomblé, que costuravam as roupas”, rememora Jacira. Mas, com o passar dos anos, elas foram assumindo novas funções, atuando até mesmo nos toques dos instrumentos ao longo dos arrastões. “As mulheres vão da confecção das indumentárias até a participação nos arrastões de rua, dando o tom na batucada”, reforça a pesquisadora em cultura, Magnair Barbosa.

Durante a roda, seu Flôr recuperou aspectos da sua infância, que ajudaram a forjar o artista do samba junino que é hoje. “Eu ouvia a minha mãe cantando aquele samba”, afirmando que desde aquele momento foi se encantando com essa arte. As memórias individuais do mestre Lobo Mall também recaem nos modos, costumes e experiências familiares. Nas histórias reminiscentes, Lobo Mall invoca o passado familiar para tratar da influência que ele teve em sua construção identitária como artista: “Meu pai era músico, minha mãe cantora”.
A roda foi também prestigiada por profissionais da FGM, como o diretor de Patrimônios e Equipamentos Culturais da FGM, Chicco Assis, o gerente de Patrimônio Cultural, Vagner Rocha e do presidente da Fundação Gregório de Mattos, Fernando Guerreiro. Este último, destacou que o Samba Junino é uma manifestação cultural genuinamente soteropolitana, por isso, foi registrado como Patrimônio Cultural Imaterial de Salvador pela Fundação Gregório de Mattos em 2018. “Com esse reconhecimento, a Prefeitura de Salvador, através da FGM, pode realizar um conjunto de ações de salvaguarda, valorização e investimentos, como temos feito ao longo dos últimos anos”, defende Guerreiro.