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‘Patrimônio é…’ aborda território, ancestralidade e identidade em edição com tema ‘Salvador Indígena’

Publicado: 06/10/2026-15:34

Texto: Luiz Otávio Freire

Foto: Luiz Otávio Freire

O conceito de patrimônio ultrapassa monumentos e registros do passado: é memória ativa, identidade, território e a história contada por quem mantém suas raízes vivas. Com essa premissa, a Prefeitura de Salvador, através da Fundação Gregório de Mattos (FGM) realizou no dia 30 de setembro, no espaço cultural Casa Verde, no bairro de Itapuã, mais uma edição do projeto ‘Patrimônio é… Rodas de Conversa Sobre Patrimônio Cultural’, desta vez dedicada ao tema ‘Salvador Indígena’. O encontro promoveu um debate sobre ancestralidade, arte, direitos e os desafios da preservação cultural no contexto urbano.

A roda de conversa reuniu painelistas que atuam na linha de frente da garantia de direitos, do conhecimento e da arte contemporânea. A liderança indígena Tamikuã Pataxó, atual Ouvidora Geral da Defensoria Pública do Estado da Bahia, abriu as falas do painel abordando sua trajetória na educação e a importância da atuação institucional no combate ao racismo e na garantia de direitos dos povos originários. O pesquisador e ativista Taquari Pataxó, destacou a importância de os povos indígenas falarem em primeira pessoa, rompendo com a tutela histórica e a fala exclusiva de terceiros. “É preciso que pensemos a capital da Bahia também como um lugar de presença dos povos indígenas. São mais de 27.000 pessoas que se autodeclaram indígenas em Salvador, e precisamos urgentemente dar atenção para essa população que vive aqui e tem sua cultura, o seu modo de viver.” reforça. Salvador é o quarto município brasileiro com a maior população indígena, somando 27.740 pessoas. 

Tamikuã é a primeira mulher indígena eleita para o cargo de ouvidora. Foto: Luiz Otávio Freire

A gerente de Patrimônio Cultural da FGM, Roberta Ventura, enfatizou o compromisso da iniciativa em ampliar a visão de patrimônio para além do passado colonial, reconhecendo a presença indígena viva no cotidiano da capital baiana. “Além de conhecer uma história que muitas vezes foi silenciada, temos a oportunidade de escutar os próprios sujeitos dessa história. Compreender Salvador Indígena é reconhecer essa presença viva. Que essa roda de conversa seja uma provocação para que possamos nos aprofundar no tema e para que aconteçam, como é nosso interesse, mudanças de políticas públicas”, declara.

Arte e pertencimento

O painel trouxe também o debate sobre as artes visuais e o letramento racial por meio do grafismo ancestral. O artista e estudante da Escola de Belas Artes da UFBA, Thiago Tupinambá, destacou a luta pela ocupação dos espaços universitários e pela transformação curricular na Belas Artes, enfatizando a importância de levar oficinas de pintura e cultura indígena para escolas da rede pública .

A artista multilinguagem e arte-educadora Isabella Muriá, abordou a arte urbana como ferramenta de combate ao apagamento histórico e à falsa ideia de que a presença indígena estaria restrita à Amazônia. Junto com Thiago, Isabella detalhou o processo de criação de intervenções marcantes na paisagem de Salvador: “Inscrevemos nos muros que ‘mãos indígenas também construíram essa cidade’ para combater essa ideia de extinção e de romantização da colonização. Trouxemos essa afirmação para mostrar que a presença e a memória indígena continuam vivas na paisagem urbana”.

O maior mural horizontal do Brasil cobre os muros do BRT de Salvador. Foto: Divulgação

A atividade contou com uma intensa participação do público presente na Casa Verde. Moradores de Itapuã, estudantes, ativistas e lideranças locais trouxeram depoimentos e questionamentos sobre o processo de desterritorialização, as vivências de indígenas em contexto urbano. A estudante Adriele Santos destacou a relevância de momentos de escuta comunitária como o projeto ‘Patrimônio é…’ para “ampliar a visão de mundo e fortalecer o respeito à ancestralidade”.